➸ Mulher Vermelha ♥

Cada vez que escrevo um bom poema é mais uma moleta que me faz seguir em frente.

quinta-feira, 23 de outubro de 2025

Ausência cheia

Dizem que existe uma dialética do amor com a presença e ausência, qual será a verdade? Não sei. Mas sei que pode existir, sim, amor na ausência. E não pela falta, pelo desamparo, pelo abandono. Mas pela saudade. Saudade dos momentos vividos e que não podem mais existir. Saudade de quem construiu o caminho, de quem plantou afeto, de quem cuidou daqui. Saudade de quem não chegou a existir no mundo, mas existiu no coração e no corpo. Eu tenho amor pelo pé de manga da minha infância, do meu casamento. Tenho amor pelos meus avós, pelos meus tios, pelos anjos que estão no céu e que foram nossos em algum momento. Eu lembro deles na falta que o cheiro, que o gosto, que o som da voz faz. Eu tenho carinho e transbordo de sentimento mesmo com a cadeira vazia, porque na voz a gente relembra cada história. Eu não tenho medo de falar de quem se foi, muito menos de quem não chegou, eu tenho a paz no coração de quem amou até o último minuto, porque a presença é só a materialização do afeto, o canal de condução do amor. O amor mesmo é intangível, inegociável, indescritível.


ROR

quarta-feira, 6 de agosto de 2025

Aurora

A deusa do raiar do dia, aquela que completaria nossas manhãs. Você já tinha nome, já tinha roupas, já tinha espaço aqui dentro. Sempre teve, desde que soubemos que você viria. O medo e a insegurança nunca foram maiores de que a certeza de ouvir seu coração bater. E ele bateu por oito semanas, aqui em contato com o meu. Saudade das noites em claro que não vivi, do cheiro da sua cabeça que não senti, do seu sorriso banguela depois de mamar. Saudade da barriga mexendo, até da angústia de esperar pelo próximo ultrassom. Te ver ali deitada foi doloroso, não te sentir é doloroso. Mas a vida tem desses, e amanhã será um novo dia. Mais um, menos um.

Mamãe,



Essas palavras que eu escrevo, me protegem da completa loucura.